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quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Carnaval


as coisas que uma pessoa encontra quando resolve arrumar o mail...


A minha avó adorava o Carnaval e, como boa modista que era, insistia em vestir a rigor a minha mãe que detestava o Carnaval.
A minha mãe, que detestava o Carnaval - como prova a expressão compungida com que ficou registada nas fotografias - teve uma filha que adorava o Carnaval.

Dado que a avó morava longe e nem sempre podia fazer as fatiotas da neta e mãe e avó nunca deixaram a criança chegar perto da caixa de costura - algum trauma de Bela Adormecida que nunca percebi -, a filha idealizava as fatiotas que a mãe, sem qualquer vocação para modista, fazia até às tantas da noite da véspera como regista a cara de sono da filha na figura junto.

Espero sinceramente que se mantenha a tendência familiar e o meu filho saia à avó dele para eu não ter de passar pelo que fiz passar a minha mãe.
Posso gostar muito do Carnaval, mas - não vá o trauma da Bela Adormecida ter razão de ser - até hoje não me aproximo de nenhuma caixa de costura...

segunda-feira, janeiro 11, 2010

É a isto que se chama Sábado



Sopa feita e roupa lavada e estendida para aproveitar o sol - que as manhãs de Sábado deixaram de ser o que eram -, almoçados todos os três, parte-se para o Chiado.

Carro estacionado num lugarzinho catita, faz-se o que se tem a fazer e ainda sobra tempo para ir lanchar ao Nicola: empadas para nós, iogurtes para o Príncipe.

De volta ao carro, os pais comem castanhas enquanto se sobe a Rua do Carmo e antes de enfrentar a multidão mais as dezenas de carrinhos de bebés que enchem a Rua Garrett como se ainda fosse Natal.

Do Chiado segue-se rumo ao CCB que é tempo do Príncipe conhecer a Amália e nós aproveitamos para ver também as (outras) "Femme Fatale; ainda encontro a Moleskine que havia esgotado no Chiado.
O Príncipe delira com uma das fotografias da Amália (acima*), nós deixamos-nos encantar com os "Corações Independentes" da Joana Vasconcelos.

À hora de jantar há tão pouca gente no CCB como nos Pastéis de Belém: sobremesa assegurada!

"Lisboa no Inverno é linda", concluímos de regersso a casa.

___


Sobre a roupa encharcada dando o mote ao Domingo de chuva que seguiu este Sábado não nos vamos pronunciar...


*Se não era esta, era uma parecida; sei que ela aparece com os olhos muito esbugalhados.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Casa de ferreiro...




Se há festividade que aprecio é o Natal. Gosto das luzes, dos bolos, das prendas - para mim e para os outros -, gosto das boas intenções e do espírito em geral apesar da origem da celebração não me dizer muito.
Se há época que aprecio é esta que passou, entre o Natal e o Ano Novo. Gosto do frio na rua, gosto do calor em casa, gosto de balanços e projectos mesmo que se esqueçam depois dos Reis.

Mas este foi um Natal diferente, com tanta decoração para a creche que a casa tardiamente foi decorada.
Este foi um Natal que não foi nada como tinha imaginado (no ano passado).

Este foi o primeiro Natal do Pimpolho, com o Pimpolho... com febre.
Este foi um Natal com as prendas-surpresa compradas numa hora do dia 24; com ida às urgências por uma consoada na certeza de que não se passava nada; com o bacalhau à espera que encontrássemos a farmácia de serviço.
Este foi um Natal em que os operários trabalharam tanto até à véspera (noutras fábricas) que a música só foi ouvida no dia 25.
Este foi um Natal que deixou a sagrada família cansada demais para se entusiasmar com o Ano Novo.

Mas o Ano Novo não espera que se compre a agenda e a Super-Bock traz a contagem decrescente a meio do jantar com um Ano Novo em força depois do curto descanso.


Este foi o primeiro Natal do Pimpolho, com o Pimpolho.
Este foi um Natal que não foi nada como tinha imaginado.
Mas o Ano Novo traz um novo Natal, certamente mais animado, como promete ser o ano em que o Pimpolho fará 1 ano.

Come-se a romã nos Reis à espera do Euromilhões.
Deixa-se a decoração até ao Carnaval, como nos outros anos.




é natal em todo o mundo
sempre que nasce um menino


01. os pais.mp3

quinta-feira, novembro 12, 2009

Novo sentido I

Quando me diziam que um filho nos faz ver as coisas com um sentido diferente nunca pensei que fosse para levar tão à letra.

De repente o que era só uma cantiguinha para o animar - um tanto machista se virmos por esse prisma - revela ser a perfeita descrição de... bem, é melhor não entrar em detalhes que este blog é público. Eu é que devo estar a ficar doida de tanto trabalho.

Doidas, doidas, andam as galinhas
Para pôr o ovo lá no buraquinho
Raspam, raspam, raspam
P’ra alisar a terra
Picam, picam, picam
Para fazer o ninho

Arrebita a crista o galo vaidoso
Có-có-ró-có-có
Canta refilão
E todo emproado com ar majestoso
É o comandante deste batalhão.

domingo, novembro 01, 2009

todos os santos e dois dentes




Quando o Halloween se propaga a olhos vistos com o respectivo merchandising não é difícl perceber uma das razões porque se vão perdendo os Santinhos.
Eu ainda fui pedir os Santinhos uma vez ou outra, estava frio. E se hoje, com menos 25 anos, me pedissem para escolher entre pegar numa cestinha da mãe ou no saco do pão da avó, entretanto já bisavó, ou numa abóbora de cetim como a que acabei de ver na televisão e nem sabia que existia...hesitava. Escolher entre bolachas maria, broas que se desfaziam no fundo do saco e nozes ou castanhas recolhidas antes de ir almoçar à avó, entretanto bisavó, ou ter 7 anos e ir antes às compras escolher umas fatiotas engraçadas e pintar-me e imagino o que devem receber agora, não é fácil. Custa manter as tradições cristãs quando as celtas vêem tão bem embrulhadas.

O menu do almoço em casa da minha avó fazia, no entanto, o meu dia gastronómico preferido e difícilmente o trocaria por alguma coisa. Insisto.
Haveria e ainda há muitas coisas de que gosto mais do que de entrecosto frito com migas, papas e broas de milho. Mas a sequência é imbatível. Nada mais faz sentir, sobre o estômago confortado pelas migas humedecidas na fritura do entrecosto, a boca doce do mel com sabor a erva-doce.

Ainda não foi este o ano em que revaivámos a memória de bons costumes. Estas coisas são exigentes, não vêm em nenhuma caixa da secção de congelados; haja respeito.
Só tinha uma vaga ideia de como fazer as papas. Não correu bem, voltaremos a tentar.
Há que aprender a organizar a tradição para a podermos transmitir à geração vindoura.

Estão já dois dentinhos à espera destas e outras iguarias.
Chegaram hoje.

Outono



Depois de um Sábado Verão feito da manhã das panquecas mais doces e da noite num pátio alfacinha, o Domingo trouxe o Outono.

Penso ter escrito em tempos que o Outono era a minha estação preferida, no tempo das estações preferidas penso ter escrito qualquer coisa sobre as folhas a cair.

É Domingo. O Domingo depois do Sábado-Verão.
As folhas caem a olhos vistos sobre as escadinhas enquanto as núvens enchem o céu de cinzento.


Não fosse a casca de banana caída onde não há bananeiras e passarem a ser os fenómenos atmosféricos a comandar a lavagem da roupa e seria perfeito.

segunda-feira, setembro 14, 2009

proporcionalidade



Segunda-feira é tão mais dolorosa quanto mais agradável é o Domingo.

(Já não me lembrava que este dia era tão difícil: levar assim com mais sete cartas quando já só tínhamos uma na mão...)

quinta-feira, setembro 10, 2009

sobre (des)ilusões

a propósito

Filha do PREC, nasci e cresci a defender os pobres e oprimidos.
Por um lado porque não era pobre - "há muitos meninos que têm bem menos que tu" -, por outro porque não era oprimida - ainda que pensasse criar o "Sindicato dos Filhos Livres".

Filha do PREC, nasci e cresci a pensar que não devíamos olhar só para o nosso umbigo, fazemos parte de um "colectivo" e, como tal, devemos pensar nos outros.

Filha do PREC fui com 3 meses para a creche, fez-me muito bem e achei que ir para a creche cedo também ia ser bom para o Pimpolho.
Por um lado porque o Pimpolho deve saber o quanto antes que não é o único a ter umbigo, por outro porque não me servia de nada pensar outra coisa.


...é o mais mimado, tem de ter sempre alguém por perto a dar-lhe atenção dizem-me na creche.


(aqui que ninguém nos ouve: fazes bem, meu filho, olha por ti que pensar nos outros serve de pouco nos dias que correm.)

sexta-feira, junho 19, 2009

dos Santos




São Pedro mexeu os cordelinhos para que o Corpo de Deus tivesse melhor apresentação que o Dia de Camões.
Entusiasmou-se depois com o Santo António e caminha para o descontrolo no São João.

Confesso que andava a pedir um calor para sair com o Piolhito, mas logo na primeira vez que vai aos Santos ficar na rua até às 2h da manhã - à espera de uma aragem - é um precedente que me pode dar problemas quando ele chegar à adolescência...

sexta-feira, junho 05, 2009

Do sling, essa modernice (como o nome indica)



Sou fã do sling, aquele pano mais pequeno em que se enfia o crianço qual sistema mãos livres para passeatas a dois.
Depois de perceber que não tenho força para pegar no ovo com o Piolho lá dentro nem paciência andar a subir e descer escadas de carrinho às costas e depois de desistir de perceber as mil voltas que se pode dar a um pano de 5m de comprimento fiquei-me pelo sling.
Claro que também há os marsúpios modernaços cheios de fechos para regular à medida do passageiro, mas se o Pingente pode ir todo enroscadinho como se ainda não tivesse saido da barriga não há motivo para o pendurar com os bracinhos e perninhas a dar a dar. Disso me convenci depois de consultados vários sites - na maioria alemães - que tinham de arranjar forma de justificar os preços (alemães) dos seu sistema sem ferragem alguma...

- Como usam em África? - resume uma amiga
- Sim - confirmo lembrando os tais sites onde a qualidade do produto é certificada por anos e anos de testes intensivos nas criancinhas desse continente (e de outros) onde as mães não conhecem a Chicco. E podia até parecer que levei o conceito tão a peito que até o tecido escolhido é africano, mas essa foi uma escolha meramente estética.

- As inglesas é que usam isso... - comenta a senhora que me faz a limpeza da casa, de origem angolana - Eu tinha um daqueles normais, como os da Chicco. Nas inglesas é que já tenho visto desses.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Paragens no tempo





Às vezes o passado vem lembrar-nos que existiu. No caminho que fazemos para o futuro, enquanto pensamos distraidamente no presente, atravessa-se uma música, um cheiro, uma notícia. Entra numa paragem de autocarro e suspende o tempo por minutos: o tempo do presente se lembrar de como ali chegou, o tempo do futuro dar uma volta na barriga pensando no que seria se, os minutos até sair na paragem seguinte depois de lembrar que existe.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Mir anda Matryoshka (3)





Do armário alto sai o caixote.
Lá dentro há sapatinhos, casaquinhos, fraldas e babygrows.
Desta vez não é a nostalgia a fazer-nos abrir o caixote.

Há roupas de que me lembro e coisas que a minha mãe puxa pela memória para me explicar como se usam. Faltam peças que se perderam noutro armário ou noutro tempo.
Pela primeira vez procuramos um futuro naquelas miniaturas e separamos recordações de roupa para lavar.

Há calçõezinhos a condizer com os chapéuzinhos, que a minha avó não deixava créditos por mãos alheias.
São brancos, amarelos, castanhos, vermelhos; que eu podia ser um rapaz.
Podem servir para ele, o bebé. Ou para ela, a criança.

Há um casaco em pele de carneiro para quem fez um ano em Novembro e fará mais 30 dentro de uma semana. Quem sabe se servirá a quem nascer em Março?
Falta uma semana para sabermos o que faltaria 4 meses para saber há 30 anos.
Há 30 mais um. Ou uma.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Amanhã

Faria frio. Frio a sério. Aquele frio em que o vento passa pelos buracos que nem sabíamos que os casacos tinham. Haveria aquele vento que não há nem nos 16 graus negativos da Noruega, que atravessa roupa e pele até aos ossos.
Vestiríamos os kispos. Apressadamente, que nunca foi possível chegar a horas àquela casa, apesar de chegarmos sempre à mesma hora.

Vestíamos kispos porque deixavam passar menos vento e eram mais confortáveis que os outros casacos, para andar em casa. Naquela casa, de porta sempre aberta, onde fazia tanto frio dentro como fora, nunca se tirava o casaco. Às vezes parecia-me mesmo que fazia mais frio dentro do que fora.
Por alguma razão que nunca percebi, nos Santos, ao contrário do Natal, a comida não estava fria.
Chegávamos sempre à mesma hora, sempre atrasados. O homem que corria mundo tinha mais pressa em chegar àquela casa que a qualquer outro canto do mundo. Nós tínhamos pressa em sair. Tínhamos frio naquela casa onde às vezes fazia mesmo mais frio dentro do que fora.
Nos Santos, no entanto, eu gostava de comer lá: migas com costado frito, papas de milho e broas. Nos Santos a comida estava quente e aquecia o estômago enquanto os pés gelavam.
Depois íamos para a braseira aquecer os pés enquanto o resto do corpo arrefecia.
Depois caia a noite e voltávamos à nossa casa quente onde pendurava o kispo no roupeiro. Lá ficava até ao Natal, quando voltaríamos para comer a comida fria naquela casa onde, às vezes, fazia frio mesmo no Verão.
Um dia fez demasiado frio dentro daquela casa e não voltei a vestir o kispo.


Amanhã não fará frio, mesmo que pareça.
Amanhã não iremos à cidade onde o frio chega até aos ossos.
Amanhã temos de preparar a casa da cidade em que não faz frio para os próximos anos.
Um dia aprenderei a fazer migas com costado frito e papas e broas de milho. Havemos de as comer em casas quentes com o frio lá fora.
Cá ou lá, não voltaremos a ter frio, nem no dia de Santos.


Não sei porque ainda guardo o kispo.
Lá está há anos, pendurado, como se esperasse outras migas com costado frito e papas e broas de milho; como se à espera que a porta daquela casa se feche.

quinta-feira, outubro 23, 2008

"...e volto a ter 14 anos"


1992
(as legendas não eram necessárias, mas não encontrei outra versão do clip original)


Os anos vão-nos empurrando para frente como se nos quisessem esconder alguma coisa.
Por mais que se escreva há sempre muito que se vai arrumando no armário que fica mais longe. E há sempre o que não cabe no caderno por mais que se escreva. O que não se esquece mesmo que não esteja escrito.

Os anos vão-nos enchendo de páginas mais em branco (ou preto, conforme os casos). Amontoam-se nas secretárias em que não se escreve que substituem as camas onde se chorava com gosto. Enchem vazios com nadas quando comparados com aqueles tudos.
Escondem as páginas do tempo em tudo merecia ser escrito, em que tudo era para sempre. Talvez para nos esconder que o tempo nos ensina que o sempre é mais curto do que pensávamos. Talvez para nos escondermos do que pensávamos. Talvez para nos escondermos dos anos que nos enchem de páginas em branco.


Até que, de repente, soprando para a frente 16 anos de folhas acumuladas, alguém nos lembra.
Uma vez. E outra. E outra.
Obriga-nos a lembrar os sítios, as pessoas, os cheiros.

De repente, lembro-me de tudo. Tantas vezes. Para sempre.


(Obrigada.)

terça-feira, julho 29, 2008

Remoto controle



Nadando bruços pela vida chega a altura de pôr a cabeça de fora.


No cinema passa "O Segredo de um cuscuz".
Acredito que um dia as pessoas aprenderão a respeitar-se nas suas diferenças e tratar-se-ão como iguais.

Na televisão passa uma reportagem sobre a Quinta da Fonte.
Quero acreditar que um dia as pessoas aprenderão a respeitar-se nas suas diferenças para se tratarem como iguais.

Vejo "Tropa de Elite".
Será possível as pessoas respeitarem-se nas suas diferenças para que tenham oportunidades iguais?
Será um dia possível?
Será ainda possível?


Como a Adriana, "eu vejo tudo enquadrado".
Tive sorte quando nasci.
Volto para a minha vidinha onde posso sempre voltar a meter a cabeça debaixo de água para procurar corais.
(...enquanto não me faltar o ar.)




Adriana Calcanhoto - Esquadros

quinta-feira, maio 29, 2008

Síndrome da avestruz



Medo de tirar a cabeça da areia ou dificuldade em tirar a areia da cabeça?

quinta-feira, maio 22, 2008

O álbum forrado a papel vermelho



A propósito do Argos, fui à procura do meu álbum de fotos dos bichinhos.

Aí estão fotografias do Rodolfo, o nosso primeiro gato (meu e dos meus pais), a ternura vestida de cinzento.

Estão fotografias do Roberto, que ganhou o seu lugar lá em casa graças ao seu bom feitio e ao modo como se deixou ficar na minha mão - era tão pequeno que uma mão bastava - que nos fez esquecer que íamos buscar o seu irmão cinzento. E estão fotografias do irmão cinzento que reapareceu uns dias mais tarde: o Valentino.

Fotografias do Fitas, o siamês fiteiro como nenhum dos gatos sem raça que nos foram fazendo companhia, o siamês que levei para casa depois de uma perseguição em Coimbra por altura da Queima (daí o nome)- tão persuasiva como só um gatinho perdido sabe fazer. Fitas, que veio a ter uma depressão quando o Argos foi viver lá para casa; acho que só um siamês tem depressões, o Roberto também não gostou do cão mas continuou com a sua vidinha.
O Fitas deprimiu, desidratou e depois de curado desapareceu para reaparecer meses mais tarde e - certamente após confirmar que o cão ainda lá estava - voltar a desaparecer, aparentemente de volta a casa de novos donos.
O Fitas ainda voltou a aparecer lá em casa. O Roberto já tinha desaparecido como todos os gatos sem raça foram desaparecendo e quando o Fitas voltou a aparecer, meses mais tarde, encontrou o Gaspar. Nunca mais apareceu.

No álbum estão fotografias da Rosinha, o nosso primeiro bichinho (meu e do que veio a ser marido), a hamster que teve de ser salva do Miró.

É um album forrado a papel vermelho, do tempo em que tinha tempo de forrar álbuns.
Vê-se bem.

Não percebo porque não o encontro...


Enquanto procurava encontrei esta fotografia, que não estava no álbum.
Fotografia do Miró quando veio morar connosco na nossa primeira casa (meu e do que veio a ser marido).

sábado, maio 10, 2008

há ir e voltar


img. Toni Frissell

Todos os anos, quando era pequena, aprendia a nadar nas férias de verão.
Todos os anos, durante uns bons anos, quando acabavam as aulas na escola começavam as aulas de bruços, depois de costas, depois de crawl e depois ia para a praia antes de começar a mariposa.

Todos os anos, quando começavam as aulas de natação, fazia piscinas de braços esticados sobre a boia dando às pernas como um barco a motor.
Todos os anos, quando começavam as aulas de natação, fazia piscinas com a cabeça entre os braços e a cara dentro de água até faltar o ar.

Agora, desde há uns bons anos, retomo os exercícios com ligeiras diferenças.
Todos os anos, quando o tempo começa a aquecer - ou basta começarmos a esperar que aqueça - enchemos o peito de ar e damos às pernas, aos braços, aos dedos, até faltar o ar.

Agora nem é preciso estar sol que o exercício é feito em espaço coberto.
Agora nem é preciso estar quente que o exercício faz-se vestido.
Agora nem é preciso quase nada: bastam uns computadores e uma máquina de café.

Agora, todos os anos, quando os outros começam a pensar nas férias, enchemos o peito de ar e damos às pernas, aos braços, aos dedos, até faltar o ar.
Então temos o tempo de uma braçada para por a cabeça de fora e encher o peito de ar; para continuar a dar à pernas, ao braços, aos dedos, até voltar a faltar o ar e voltarmos a por a cabeça de fora para inspirar...

É assim todos os anos, até às férias de verão.


"Não sei como acontece; ainda agora estava de cachecol e quando volto a olhar já anda tudo de xanata!" costuma dizer a Susy... todos os anos.

quinta-feira, maio 08, 2008

A minha avó mais nova



www.garbes.com


A minha avó mais nova faz 80 anos.
80 anos.

A minha avó mais nova faz 80 anos.
A minha avó mais nova sorri para nós, cá em baixo, há 80 anos. (A minha avó mais nova é mais alta que muita rapariga nova.)
Número mais redondo só nas balanças onde eu e a minha mãe nos pesamos; mas não na da minha avó mais nova, que ela cuida-se.
Não se deixa engordar, nem tem cabelos brancos que se possam comprovar.
A minha avó mais nova tem pele de bébé, graças à agua de rosas e os leites da Tokalon que nunca faltaram na prateleira.
Diz que não se lembra da última vez que pintou as unhas, mas deve ser partida dos 80 anos, pois eu sempre lhe conheci as unhas cor-de-rosa claro.
A minha avó mais nova tem maleitas e achaques e doenças de longa data, mas esconde-as na mesa da máquina de costura para ninguém as ver.

A minha avó mais nova faz 80 anos.
Diz no BI, mas não sei se acredite.

quarta-feira, maio 07, 2008

Argos


1998-2008


Passaram-se dez anos desde que Odisseu partira para a guerra de Tróia (guerra que é, em parte, narrada na Ilíada). Muitos dos heróis da guerra de Tróia, como Menelau, cuja esposa – a princesa Helena de Esparta – havia sido raptada (originando-se assim a guerra), já regressaram à Grécia. (Tróia ficava na costa jônica, atual Turquia). Mas Odisseu não chegou, pois após sair de Ísmaros (primeira cidade no caminho para a sua pátria), envolveu-se em uma tempestade, afastando-o do seu destino. Entretanto, os pretendentes de Penélope (esposa de Odisseu) acumulam-se e esperam que ela se decida a casar de novo. Ao esperarem, vão dilapidando a fortuna de Odisseu em banquetes. Penélope, esperançosa de que seu marido retorne, vai protelando a escolha de um dos pretendentes (por vezes ardilosamente, como na célebre fiação do bordado mortalha, na qual lhes diz que quando acabar escolherá um dos pretendentes, mas de noite desfaz o que fez de dia).
Odisseu, tentando retornar, erra pelo mar por mais dez anos . É recebido no país dos Feácios, (conhecidos por serem exímios marinheiros) a quem conta as suas aventuras. Acaba por conseguir regressar a Ítaca. Prepara tudo para massacrar os pretendentes, o que faz com a ajuda do seu filho Telêmaco.*


E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ílion.
[...]
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
[...]
"É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspecto e as capacidades que tinha
quando deixou Ulisses, ao partir para Tróia,
admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente."
[...]
Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
e foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.


*Wikipédia
**excerto do canto XVII da Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, livros Cotovia, 2003